12 de agosto de 2010

O Caçador de Apóstolos

*Texto Publicado no Ambrosia dia 10/08/2010 - veja no link

O Caçador de Apóstolos, da Jambô Editora, é escrito pelo brasileiríssimo Leonel Caldela, e este já é o seu quarto livro. Anteriormente, o rapaz escreveu uma trilogia relacionada ao universo do RPG Tormenta, o que eu acho que deve ser bem complexo de fazer. Não li os livros anteriores e esse é meu primeiro contato com a sua obra.

Confesso que não tinha muitas esperanças ao receber um título de fantasia nacional. Afinal, a grande maioria das minhas leituras não são nacionais - e devo me envergonhar disso -, e assim como o cinema eu não acreditava que fosse ter algo bacana em mãos. Me sinto ridícula e extremamente feliz em constatar que paguei a língua.

O Caçador de Apóstolos é uma aventura sobre o fanatismo, as diferenças sociais, ideológicas e religiosas de um povo que vive oprimido pela Igreja na Idade Média. O narrador, um dramaturgo chamado Iago e personagem ativo e essencial para a história, mostra o seu ponto de vista bem teatral sobre toda aquela época, tudo o que os seus olhos viram e seus ouvidos tiveram a oportunidade de ouvir, sempre deixando claro que aquilo que ele conta é uma narração às vezes tendenciosa ou até mesmo uma mentira.

Iago retrata uma sociedade em pedaços: uma grande disparidade social. De um lado a Igreja e seus cardeais dominando toda a riqueza através do medo e da impunidade em nome de Deus. Totalmente do lado oposto, o povo em geral faminto, vivendo no meio da miséria e dominado pelo fanatismo a Urag (entidade que podemos talvez trocar com Jesus Cristo). Mas existem pessoas que fazem a diferença nessa história, e em função do mito criado pela própria Igreja iniciam uma rebelde revolução.

Capa Caçador de Apóstolos por Greg TocchiniArte da capa por Greg Tocchini

Aqui temos Atreu, guerreiro culto, mas com espírito selvagem e que não acredita em Deus; Jocasta, garota pobre que convive com manifestações sobrenaturais e lida com isso durante toda a sua vida; Ganimedes, guerreiro respeitado pelo povo e que adora a Deus; Benedict, imagem do perfeito representante da igreja em combate; Oberon, guerreiro troll, folgado e sedento por sangue, mas não muito inteligente; Penélope, guerreira selvagem que foi dominada pela Igreja; D'Agostini, um marinheiro rebelde e experiente, caçador de piratas; Desdêmona, garota criada pela Igreja como a Voz de Urag, representante santíssima da divindade e quase tratada como santa; e o próprio Iago, descrevendo suas trajetórias de vida que acabam sendo ligadas e manipuladas pelas mãos de cardeais.

O livro é visceral na hora de colocar as palavras e não economiza no vocabulário chocante, nem nas ações bizarras. Passagens como a falsa Voz de Urag na vila de Jocasta, que acabou promovendo uma verdadeira loucura coletiva, a vida de Atreu em um colégio de educação libertária e como isso foi tirado dele, e toda a trajetória de Iago com a sua trupe teatral descrevem bem esses aspectos. É complicado se apegar aos personagens desse livro sem sofrer com eles.

Mas devo dizer que além da narração da história ser deveras interessante, a linha do tempo completamente irregular é um atrativo a mais. É realmente como se fossemos nós descobrindo fatos e contando em uma linha de raciocínio temporal. E claro, é uma crítica pesada ao movimento religioso daquela época e com diversos momentos de fanatismo que me lembram coisas que eu mesma já vi na vida real.

Alguns elementos da história, porém, são exageradamente fantasiosos, e as explicações racionais não converncem muito. No final, fica bem claro que a linha do ceticismo está aberta e você pode interpretar da forma que quiser. Mas isso não tira a emoção do livro, e devorar as páginas foi o mínimo que eu consegui. Simplesmente uma delícia de ler, principalmente se você não se ofender muito com questionamentos a Deus.

Título: O Caçador de Apóstolos
Autor: Leonel Caldela
Formato: 15,5 x 23 cm, 416 páginas, brochura
Preço: R$ 55,00
ISBN: 978858913447-7

Veja mais sobre o livro no site da Jambô Editora

Um comentário:

  1. O título já é bem chamativo, no entanto tinha lido outra resenha de que o livro peca muito nos diálogos (coisas muito semelhante à pré-escolar). Eu não ia ligar para a obra se não fosse 2 detalhes da sua análise: “O livro é visceral” e “não economiza no vocabulário chocante” me despertou interesse novamente pelo livro. hehehe

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